quarta-feira, fevereiro 06, 2008

"Tomai e comei, este é o meu corpo"


A minha menina está a passeio pelas terras “yankees” e recentemente esteve em uma exposição do corpo humano, com cadáveres plastificados, igual a que esteve aqui em São Paulo, no ano passado. Essa eu perdi, confesso. Mas o que me trouxe de volta a questão, foi uma reportagem sobre a excentricidade de um médico Alemão que não apenas plastifica cadáveres como também os comercializa. O laboratório do médico Gunther Von Hagens oferece atualmente, a faculdades de medicina, cortes de cadáveres "plastificados" em amostras longitudinais, da cabeça aos pés, a 12 mil euros. Os progressos na produção de cadáveres plastificados permitirão vender cortes transversais a 250 mil euros a peça para que qualquer um possa se dar o luxo de exibir uma criação de Von Hagens em seu próprio lar. E é esta , segundo a reportagem , a intenção deste médico. Torna-se possível ter um bisavô , constando como peça ,em seu próprio inventário, ou o busto de uma sorridente tia, na estante da sala de visitas. No Brasil a moda não pegaria , pois a legislação criminal só permite a posse de cadáveres em circunstâncias acadêmicas. Mas o assunto, na minha cabeça, está longe desta macabra idéia. Me surpreende a forma como o homem está se distanciando , conceitualmente, de seu corpo. Enquanto na antiguidade se preservava defuntos para um potencial retorno, e no próprio cristianismo há a promessa da ressurreição da carne, tratar uma pessoa falecida como um pedaço de carne decorativo é no mínimo um salto de perspectiva que expressa bem os reflexos da pós-modernidade. A pergunta filosófica chave é “o que sou eu?”. Quando olho minha mão ou meu pé, componentes de uma unidade que chamamos de corpo, eu nunca digo “eu sou a minha mão” eu digo “eu tenho uma mão”. Se estendermos a reflexão aos sentidos, eu não sou minha visão, nem qualquer outra percepção, mas eu as tenho. E o cérebro então? Tendemos a crer que somos o pensamento que se origina no cérebro, mas a verdade é que ainda temos que lidar com o fato de que a origem da consciência ainda não está demonstrada cientificamente, e que o cérebro pode ser , não mais que, um acessório extra ao funcionamento do todo corporal. Em 2007 um bebê anencéfalo ( nascido sem cérebro ) conseguiu viver por mais de seis meses após o parto. Teria este bebê consciência?
Então, o corpo é uma coisa? Eu sou alguma coisa? Eu derivo do corpo ou o corpo deriva do meu ser? Um outro alemão, Kant, chamou de “coisas em si” ás realidades que não se podem conhecer por se encontrarem fora dos limites da experiência possível, isto é, que transcendem as possibilidades do conhecimento. Isto me leva a me perguntar se , dentro de um pensamento ético, poderíamos desqualificar o corpo como pedaços dispensáveis de uma matéria que não se comunicaria com toda uma experiência de vida.
O “corpo” como “pedaço de mim” é um conceito comum. Mas uma coisa é pensar um conceito, outra coisa é dar ao mesmo validade objetiva, isto é, possibilidade real e não meramente lógica. As coisas em si opõem-se às aparências, no sentido kantiano de aparência. E neste labirinto de possibilidades de percepção do corpo, e de conceituação do “eu consciente”, espero que mais debates aconteçam antes que a vida, ou ao menos a parte material das experiências vividas, se compre em lojas de 1,99!

11 comentários:

Cris disse...

Somos muito mais que matéria, sem dúvida! Mas isso não significa que podemos depreciar nossa morada neste mundo. Achei a idéia deste médico de péssimo gosto! Mas a discussão é ótima!
Beijos Má

Veri McQueen disse...

Façam o que quiserem com o meu corpo, quando eu morrer... não vou me importar tanto, eu acho... rs
legal o texto!

Ana Rita disse...

Maurice Merleau-Ponty tem uma linda discussão filosófica sobre o corpo objeto e sujeito da relação entre o homem, o perceber e o existir. Por ser mais moderno que Kant, incluí algumas questões além do ser em si ( se aproximando do ser para si em Sartre ). Fica aqui minha dica de leitura para quem quiser :
MAURICE MERLEAU-PONTY "Fenomenologia da Percepção"

Kasar disse...

" a minha menina " ...
tu engravidou, teve filha e nem me convidou pro chá de bebê? hauhauahuaauhauh

E outra! Pare com este moralismo fascista, decoração de corpos é o que há!!!! farei uma casa Tzismisce ! auahauhauhauahauh

André Ribeiro disse...

Sobre decoração de cadáveres, Só tenho uma coisa a dizer:

KITSCH! MUITO KITSCH


coincidentemente em alemão rs

Fernanda disse...

Então , má
como eu te falei por msn, o corpo sou eu, o todo sou eu. é como eu vejo. Assim como não posso dizer que ontem eu era outro ( tempo ) tambem não acho que possa dizer que parte de mim não seja eu ( espaço ).
Parabéns por mais um texto instigante!
bjs

João disse...

Legal o texto, Marcel!
Abração

Gustavo disse...

Gunther Von Hagens , vou anotar o telefone deste cara. hehehe

Lucas Quevedo disse...

esso no ecxiste

Kat disse...

Pronto, vim botar fogo no circo.
Como te disse por orkut, a menina nao era exatamente anencefala. Ela tem um outro tipo de anomalia em que o cerebro nao existe no tamanho normal ou funcoes normais e nao esta devidamente conectado a espinha ou algo assim. Procuro melhor pra te informar depois. O que importa e que ela nao entra na categoria `anencefalos` que dao o `livre arbitrio` de ser abortada ou nao.
Essa coisa de corpo x existencia x morte e complicada. A grande maioria nao permite nem doacao de orgaos nem cremacao porque e o fulano ali, como se estivesse vivo e consciente (e muito morto se pudesse ja tinha se rebelado). O corpo e importante? Em vida, na minha opiniao. Depois so vai servir para alimento de minhoquinhas e grana gasta no cemiterio. O corpo e o que me permite estar aqui e efetivamente estar viva, viver. Quando isso cessar, pra que vai servir o corpo? A memoria esta no cerebro de quem vive, nao no pedaco de carne (ou later, ossos) que vai ficar enterrado.

O ponto que me interessa e ate quando o estado vai mandar no meu corpo (vivo).

Marck Senna disse...

Meninas, obrigado pelos comentários.
Kat seja bem vinda. adoramos trocar opiniões por aqui! compareça sempre que quiser! uma vez por mês sai alguma coisa...
beijocas pra todas
abraços pra quem não se incluir no conjunto "todas" !