Todos os amigos já sabem que em 1995 eu comecei a estudar
italiano. Alguns até sabem o porquê. Resolvi, agora, compartilhar esta história,
pra mim especial, e deixá-la registrada no mundo virtual. Se alguma coisa me
ocorrer, este é o tipo de história que eu acredito que tem que ficar. Então aí
vai mais uma confissão para os registros do Blog.
O ano de 1994 foi um ano mágico. Depois de Sarney e Collor, voltávamos
a crescer economicamente. Também foi o ano em que ganhamos a copa do mundo
graças a Romário e Roberto Baggio. Completei meu álbum de figurinhas do mundial
graças à cooperação do meu amigo Cacadi. Foi o ano em que eu participei de um
encontro interestadual do colégio Marista, onde apresentei meus quadrinhos
amadores como arte em Belo Horizonte. As mesas de Medieval iam fantásticas. Mas
foi no verão do final do ano que a magia realmente aconteceu. Foi quando eu
experimentei o mais legítimo e verdadeiro sentimento de amor.
Em dezembro de 1994, peguei minhas malas e parti de trem
para o interior. O objetivo era ficar um mês, na casa dos meus avós paternos,
em Ipatinga MG. Munido de walkman, músicas anos 90 Dance Music, e uma
despretensão própria de quem não sabe o que a vida reservava.
Logo ao chegar, reencontrei primos que me avisaram, sem que
eu desse importância, que uma certa prima de terceiro grau, residente na
Itália, estava na casa de uma tia-avó. Foram uns dois dias peregrinando por
casa de parentes, revendo e cumprimentando toda a família. Quando finalmente
cheguei na tal casa da tia-avó, tive uma surpresa. Um rosto nada familiar. Eu realmente
nunca havia visto aquela mocinha de corpo magrinho e carisma incomparável. Ela
vinha de férias, de Turim – Itália, e estava passando um tempo na cidade. Ana
Paula, uma garotinha branquinha de cabelos lisos castanhos e curtos, de
português com carregado sotaque estrangeiro e muita simpatia. Como ela é filha
da prima do meu pai, tenho tanto parentesco consangüíneo com ela quanto tenho
com o porteiro do prédio. Estava aberta a caixa de pandora.
Bastou conversar uma vez com ela para que eu sentisse os
clássicos sintomas: sudorese, coração acelerado, ansiedade agravada e uma
vontade enorme de ficar por perto, o tempo todo. E assim começamos a conviver
pelos melhores dias de verão da minha vida. Ela era espertinha, pensava rápido
e sempre sorria. Mas não fora pela beleza que sucumbi, fora por um conjunto de
coisinhas inexplicáveis, como um sorriso fenomenal, brilho nos olhinhos
pequenos, sotaque charmoso e um jeito simples e arrebatador de ajeitar os
cabelos , na altura do ombro, para trás da orelha. Ela não era linda, mas
whatever, pra mim ela era perfeita.
Comentei com a minha tia que eu tinha gastrite ( na verdade
nesta época eu já estava bem ) e ela me disse pra eu ir a casa dela toda manhã,
antes do café, para tomar um remédio que derivava de uma planta que tinham no
quintal. Pronto, passei a ter a pior gastrite incurável do mundo, só pra ter a
desculpa de ver a Ana Paula acordar todo dia. E como valeu. Ficamos amigos
rapidamente.
Passei então a focar minhas férias naquela sala de estar da
tia-avó. Lá ouvi sobre as escolas da Europa, sobre neve, sobre as músicas que
ela gostava e sobre a vida pelos olhos dela. Passeamos pelas ruas do bairro. Ficamos
tão juntos que eu tinha até me esquecido de como era não estar com ela. E
aquele jeito de colocar os cabelos atrás da orelha... igual ao feito por 90%
das garotas do mundo, e mesmo assim perfeitamente singular. Não me dei conta,
mas era amor adolescente, o melhor, o mais puro e verdadeiro de todos. Sem estereótipos
nem vícios de relacionamento... era um delicioso primeiro amor.
Duas semanas se passaram e ninguém arriscava mudar o status
da convivência. Eu tinha 13 anos e nenhuma experiência séria com as mulheres. E
deixei o tempo passar, num platonismo de aproveitar a companhia e nada mais.
Foi quando a tia-avó e sua família , incluindo a Ana Paula, foram passear uma
semana num sítio. Eu fiquei pra trás, mas a doce menina me deixou a fita k7 de
músicas italianas dela comigo. Eu ouvia seguidas vezes repetidas as mesmas
músicas, intercaladas por chamadas da locutora da radio venaria de Turim, em
meu walkman. Doia tanto ficar repentinamente longe que eu resolvi fazer uma
cópia da fita pra mim, quando ela voltou. E felizmente ela voltou.
Vou sintetizar os acontecimentos porque parece história de
filme do Woody Allen. Na ausência dela, descobri que ela tinha sido paquerada
por um tal Anselminho, um rapazinho da cidade. Descobri isso por meio de uma menina
chamada Andréia, que foi minha companhia na ausência da Ana Paula. Determinado
a não perder a amada para o menino, ensaiei com frio na barriga como eu ia
dizer para ela o que eu sentia. E ela voltou. Na festa de réveillon, eu resolvi
me revelar. Só que a Andréia que tava me ouvindo chorar pela Ana, motivada por
algum tipo de ciúme, resolveu estragar os meus planos e quando eu estava
prestes a contar tudo pra Ana, Andréia surge aos gritos de “alegria cruel”,
anunciando que o Anselminho estava chegando para vê-la ( dias depois descobri
que a mesma Andréia tinha ido chamá-lo... mulheres ). “Então, o que vc queria
mesmo falar pra mim?” Ela perguntou. Fiquei tão nervoso que falei da pior forma
possível. Assustei a Ana Paula, óbvio, que saiu as pressas para receber o Anselminho...
...Isto doeu horrores. Um primeiro amor seguido de um
primeiro grande FORA. Fail total! Segui meio “morto-vivo” pra casa de outros
parentes onde acontecia um churrasco. “quer saber? Eu não vou ficar aqui
fingindo que ta tudo bem”. Roubei da geladeira TODAS AS CERVEJAS dos meus tios
e as coloquei num saco plástico e sai pelas ruas bebendo, e eu não era de
beber. Fui encontrado horas depois pelo meu primo ( enviado a mando dos
revoltosos pelo sumiço das cervejas ). E vomitei, claro. Primeiro amor com
primeiro Fora é igual a primeiro PORRE, naturalmente.
Nossa amizade esfriou, e ela passou a me evitar. Fui mais
uma ou duas vezes à casa da tia-avó... só serviu para que eu furtasse do álbum da
tia, uma fotografia da menina que ajeitava os cabelos atrás da orelha. Primeiro
FURTO qualificado ( com atenuantes ). Eu tinha estragado tudo e só me restava
um endereço para cartas, uma fita k7 com as músicas que ela amava e uma
fotografia de sorriso. Agora um sorriso que fazia doer.
Foi um amor nunca consumado e mesmo assim me deixou caído
por uns 4 meses depois que voltei pra casa. Até o dia em que eu resolvi: “Sabe?
Eu vou escrever uma carta e contar a minha versão da história. E tem mais, vou
escrever em Italiano”. Comprei um guia de conversação italiano, um livrinho que
me acompanhou por anos seguintes, e com uma gramática , comecei a estudar a
língua de Dante. A carta foi pra Europa, mas nunca foi respondida... Mas tudo
bem, descobri que idiomas eram fáceis de se aprender sozinho e passei a estudar
Francês, Espanhol , Alemão... A paixão pela Ana foi sublimada por uma paixão
por idiomas e cultura. Fiquei viciado em futebol Italiano, em canais de TV toscos
como a RAI e em música européia. Enfim, me tornei aquilo que sou, um pouco
cosmopolita. Sempre ganhamos algo, mesmo quando o que perdemos é a coisa mais
importante do mundo, naquele momento, para nós. Ou pelo menos é assim que eu
prefiro acreditar.
Ano passado uma prima me passou o “Orkut” da Ana Paula e
fiquei triste de ver uma mulher siliconada, tão diferente da menina frágil que
sabia hipnotizar colocando os cabelos pra trás da orelha. Então eu decidi
esquecer o Orkut dela, nem fiz contato nem nada. Afinal de contas, a Ana Paula
da qual quero me lembrar é aquela do verão de 1994. Auguri, Ana Paula! Sia Bene!




